quinta-feira, 23 de junho de 2016

O bolo

A semana começou com a missa na segunda feira. Pois o pai não admitia que as datas comemorativas da família passassem em branco, muito menos aquela. A festa seria no sábado, quanto a isso ele não via problema, mas a missa de quinze anos de Sofia, a filha primogênita, tinha que ser no dia do aniversário. A celebração que além de ser em dia de semana foi pela manhã, não pôde contar com a presença da maioria dos convidados, mas o pai, Alfredo, não se comovia:“- Comemoração de aniversário é no dia”, dizia ele em tom certeiro. A família também não se abalava, pois aquilo já era um hábito antigo que não causava nenhum tipo de estresse, muito pelo contrario, por muitas das vezes gerava mais de um festejo para o mesmo evento, como seria o caso daquele aniversário. Após a missa Sofia se despediu dos poucos que compareceram e foi almoçar na companhia dos pais e avos em um restaurante perto da igreja. O almoço foi seguido do tradicional canto em volta de um pequeno bolo dos parabéns com gritinhos de saúde a aniversariante, exigência do pai que fazia questão, o que embora não agradasse muito a filha, que morria de vergonha daquelas manifestações em publico, sabia que de nada adiantaria protestar e fingia que gostava para seu desconforto acabar mais rápido. Após a família terminar de comer o bolo e a mãe servir alguns pedaços para os poucos clientes que estavam no restaurante e participaram dos parabéns, fazendo Sofia corar ainda mais de constrangimento, o pai tirou do bolso do paletó do terno, feito especialmente para data, uma caixinha de veludo e entregou a filha, que se surpreendeu quando abriu e viu que tinha dentro um anel de ouro com um pequeno brilhante no centro e todos bateram palmas, chamando mais uma vez a atenção dos outros clientes que acompanharam os aplausos, mas desta vez Sofia não pareceu ligar muito para o que ocorria a sua volta, estava emocionada, levantou e foi dar um forte abraço no pai e em seguida na mãe e assim foi o dia do aniversário, feliz e em família como era de costume.  A semana seguiu nos preparativos da grande festa do sábado, que teria a presença de todos os amigos e familiares. A aniversariante não cabia em si tamanha era a sua ansiedade, contava os dias para chegada do evento que estava sendo preparado com muito carinho pela mãe, Eleonora, que havia se encarregado pessoalmente pela execução dos quitutes e do bolo, como fazia todos os anos e naquele não poderia ser diferente, estava empenhadíssima para que tudo fosse perfeito, afinal era uma data especial, quinze anos de sua filha mais velha. Na véspera do grande dia a mãe amanheceu na cozinha. Começou pelo bolo, às oito horas da manhã já havia batido e assado a massa e colocado para esfriar para ser regada posteriormente com a calda de doce de pêssego em lata.  Eram vários tabuleiros de diferentes tamanhos, o objetivo era montar um castelo com cascata de frutas frescas, seria uma tarefa difícil, nunca havia feito um bolo com tamanha complexidade, mas estava confiante e animada que daria certo. Para o recheio fez uma mistura de ameixas, doce de leite e nozes picadas, uma verdadeira delicia. Nesse maio tempo... o marido chega do mercado com as sacolas apinhadas dos ingredientes que estavam faltando para o preparo das guloseimas da festa e começa a esvazia-las e colocar as compras em cima da mesa e a apreciar, com orgulho, a mulher em atividade, mas a mesma logo o conduz para fora da cozinha, uma vez que não queria ter sua atenção desvirtuada para não comprometer a elaboração de sua obra prima. Alfredo então vai ler o jornal na sala e deixa a mulher com suas atividades na cozinha. Eleonora volta ao trabalho desenformando os tabuleiros, que já estavam frios, em uma tabua posta sobre a mesa com todo cuidado, iniciando assim a montagem do bolo. Seu coração batia rápido em uma combinação de ansiedade e felicidade, mas também por sua ousadia em fazer algo tão arriscado para o aniversário da filha, mas ao mesmo tempo sentia-se segura para continuar na tarefa. Então começou a abrir as latas de doce de pêssego e a molhar o bolo com a calda seguindo com a colocação do recheio e desenformando outro tabuleiro e assim por diante e quando já estava com o que deveria ser à base do castelo praticamente montada, viu que havia, inadvertidamente, entre uma lata e outra do doce de pêssego, aberto algumas de salsicha postas na mesa pelo marido, que eram para o cachorro quente, que se misturaram as do doce. Quando Eleonora se dá conta do engano começa a extrair, de maneira frenética, os pedaços onde supunha que tinha derramado o caldo da salsicha, ela gritava loucamente tamanho era o seu desespero em imaginar que poderia arruinar o bolo, achava que se demorasse a tirar a parte atingida o gosto iria entranhar de tal forma que não teria mais jeito e é nesse exato momento, que a avó da aniversariante, D. Clotilde, chega para saber como estavam os preparativos da festa. Era uma senhora idosa de seus oitenta e poucos anos, se locomovia com dificuldade com auxilio de uma bengala dado a artrose avançada nas duas pernas. Ela entrou chamando pela filha e logo percebeu que algo estava errado devido aos gritos que vinham da parte de trás da casa e seguiu aflita para ver o que está acontecendo e quando chegou à cozinha, onde a essa altura já estava lá também o genro que foi atraído pelos brados da mulher, dá de cara com aquela cena e como que tomada por uma força, que não soube explicar depois de aonde veio, largou a bengala e agarrou os braços da filha, que a todo custo tentava se desvencilhar. D. Clotilde sacudia Eleonora com tamanha avidez, inconcebível para seu estado físico, e dizia que a filha estava possuída por maus espíritos e ordenava com gritos de guerra para os mesmo se afastarem e começou a rezar e fez sinal para que o genro a ajudasse mandando-o trazer um copo de água com sal, ele sem protestar obedeceu, estava assustado demais para questionar qualquer coisa. As duas ficaram ali travando uma luta e Alfredo, totalmente apavorado com estado da mulher e, por conseguinte com o de D. Clotilde e ao mesmo tempo com medo de ser também possuído pelos maus espíritos, que a sogra insistia em querer expulsar, ali permaneceu inerte e sem coragem de abrir os olhos e dando graças a Deus pela filha estar na escola e não em casa naquele momento. De vez enquanto até arriscava abrir um dos olhos para ver como estavam as coisas, mas fechava em seguida com todas as forças que lhe restavam tamanho era seu pânico. Eleonora tentava apontar para o bolo, gritando que tinha que salvá-lo, mas D. Clodite não entendia os apelos da filha e a segurava pelos braços com vigor, molhava-a com a água com sal e a chamava pelo nome achando que assim a traria de volta ao seu estado normal quando de repente se deu conta de que a filha estava se referindo ao bolo e parou por um minuto num misto de descoberta e espanto: - O bolo?! É ele?! Eleonora se sentindo aliviada por finalmente ter conseguido se fazer entender, respondeu afirmativamente apontando para o bolo repetindo “sim” aos berros por diversas vezes. D. Clotilde então largou a filha no chão, não se sabe como, mas ela estava com uma força extraordinária, mirou na tabua, que já estava com a base do castelo montada, e em um só golpe a puxou e em seguida pegou as massas assadas que ainda estavam nos tabuleiros e fez uma pequena montanha no chão da cozinha a qual pisoteou de maneira inacreditável, para alguém que como ela tinha artrose nas duas pernas o que lhe limitava os movimentos, sob os gritos que o mesmo estava enfeitiçado. Eleonora se agarrou aos pés da mãe, tentou impedi-la, mas de nada adiantou, ela só parou quando apenas restaram farelos espalhados por todo o chão. D. Clotilde sentindo-se plenamente satisfeita como uma verdadeira heroína que acabara de salvar a filha sentou em um banquinho no canto da cozinha e disse:      - Pronto filha! Tudo resolvido! Nossa, temos que mandar benzer essa casa antes da festa, mas deixa comigo, mamãe resolve. Alfredo, que finalmente conseguiu abrir os olhos e sair do lugar de onde estava imóvel, foi até a mulher tentar ajudá-la a se levantar, mas Eleonora sem forças para mais nada recusou o auxílio do marido e permaneceu no chão observando a mãe que falava sem parar dos maus espíritos que invadiram o bolo de quinze anos da neta e de como ela havia resolvido a situação. D. Clotilde seguindo em seu estado de graça de semideusa dirigi-se a ajudante da casa Gertrudes, que acabara de chegar para o trabalho e olhava espantada para tudo aquilo sem entender o que estava acontecendo, e pede para que lhe preparasse um café bem forte e quente com torradas, manteiga, queijo e geleia, dizendo que já estava ali há tempos e ninguém havia se lembrado de lhe oferecer nada para comer.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Festa de Casamento

Sofia era professora para satisfação do pai, Sr. Ernesto, que criou os filhos sozinho depois que ficou viúvo. Além de Sofia, tinha Herculano que era marceneiro, filho mais velho já casado.

Sofia já tinha passado da idade, dita pelas moças da época, de casar. Até mesmo o pai a incentivava a sair na esperança de que conhecesse alguém e quem sabe conseguisse um casamento, mas a moça não se abalava, dizia que quando chegasse a hora acharia seu príncipe.

Sofia e Matilde, mulher de Herculano e também professora, eram amigas e lecionavam na mesma escola. As duas sempre voltavam juntas para casa depois das aulas e paravam em uma lanchonete que ficava no caminho e foi em um desses dias que conheceram Bernardo, que estava no balcão tomando um café e logo foi atraído pela mesa das moças a sua frente. Sofia não reparou nada e só se deu conta quando Matilde, que logo notou o olhar para a cunhada, lhe apertou o braço. Bernardo fez um aceno perguntando se poderia se juntar a elas e antes que Sofia pudesse dizer alguma coisa, Matilde fez sinal afirmativo e no minuto seguinte estavam os três a conversar. Bernardo era medico e atendia em um consultório nas proximidades. Os encontros passaram a ser regulares e aos poucos Matilde, que já havia notado o interesse de um pelo outro, mesmo sob os protestos da cunhada, passou a não ir mais. Logo Sofia ficou a vontade, estava realmente interessada em Bernardo.

Após seis meses, Bernardo achou que já era hora de conhecer a família de Sofia e oficializar o namoro. Sofia não havia falado nada em casa sobre Bernardo, ao pai dizia que estava dando mais aulas e por isso chegando mais tarde. Sr. Ernesto por sua vez de nada desconfiou só Matilde sabia a verdade e torcia muito pela felicidade da cunhada de quem gostava como irmã e a seu pedido nem ao marido contou sobre o namoro. Sofia embora nervosa, mas certa de que era a melhor coisa a fazer já que estava apaixonada e confiante de que havia encontrado o homem de sua vida apresentou o namorado ao pai, que de inicio se mostrou contrariado por não ter sabido de nada antes, mas depois que conheceu Bernardo e o mesmo fez o pedido de casamento, o que foi inesperado até para Sofia que não imaginava tal surpresa, ficou radiante de ver que a filha finalmente tinha conseguido um marido. A notícia logo se espalhou pelo bairro e toda a vizinhança apareceu para dar os parabéns e se oferecer para contribuir com a festa de casamento. Sofia era muito querida e seu casamento já havia sido até motivo de promessa das moradoras mais antigas que a viram nascer e não se conformavam de moça tão bonita e prendada ainda solteira e por mais que ela dissesse que não queria nada, as mulheres insistiram tanto que a deixaram comovida e acabou aceitando.

As vizinhas pareciam formigas trabalhadeiras empenhadas com cada detalhe da festa nos meses que seguiram para deixar tudo impecável para o grande dia. O bolo ficou a cargo de Matilde, que além de professora era uma boleira de primeira e fez questão de fazer o do casamento da cunhada e melhor amiga. O pai não abriu mão de pagar o vestido da filha e o irmão contribuiu, junto com os homens do bairro, com as bebidas. O local escolhido para festa foi o salão da associação dos moradores. Sofia concordou em não se envolver nos preparativos e só cuidaria dela mesma. Matilde testou várias receitas para o bolo e viu inúmeras revistas sobre adornos, queria que fosse perfeito. O assunto era recorrente no bairro, não tinha quem não comentasse sobre o bolo. A curiosidade era imensa sobre a peça central da festa e para ela foi reservado lugar de destaque no centro do salão, Herculano fez uma mesa especial com pés altos para que ficasse em evidencia. Por mais que as mulheres insistissem, Matilde não dava nenhum detalhe, queria causar impacto.


Enfim chegou o dia do casamento, os homens se encarregaram da arrumação do salão e depois de tudo pronto Herculano foi buscar o bolo. Quando chegou em casa, estava tão curioso, pois nem ele ainda tinha visto o bolo, que nem notou o desanimo de Matilde que estava sentada na sala, lhe deu um beijo e foi direto para cozinha apanhar o bolo e quando o viu exclamou: - Nossa! Está lindo! Falou com empolgação e foi interrompido pela mulher que aos gritos correu até ele: - Está grande demais! Não passa na porta, não sei o que fazer! Matilde chorava e o marido tentou de todas as formas, mas não tinha como, o bolo não passava nas portas, nem nas janelas, nem em pé nem de lado, de jeito nenhum, era realmente grande demais. Matilde estava arrasada e resolveu ir falar com as outras mulheres que ficaram enlouquecidas e a que parecia a líder delas logo achou a solução:     - Vamos fazer a festa na sua casa, sem bolo é que não dá para ficar! Matilde argumentou que a casa era pequena, que não ia caber todo mundo, mas de nada adiantou e foi um corre, corre para transferir tudo do salão, ou melhor, quase tudo para casa de Matilde. Tinha cadeira até na calçada, o cartaz da entrada com o nome dos noivos ficou em cima da caixa d´água e só era visto da rua, as bebidas dentro da banheira e os doces e salgados espalhados pela casa em cima dos moveis. Mas o pior mesmo foi quando os convidados começaram chegar e só queriam saber de ver o bendito bolo, assunto mais comentado nos últimos meses e a curiosidade era imensa, não teve quem não pronunciasse um vigoroso “Oh!” quando davam de cara com a obra prima de Matilde que já não sabia mais como fazer com aquela loucura de gente se apertando na sua cozinha minúscula, mas que era o local que todos queriam ficar, pois era lá que o bolo estava. Nem a noiva teve tanta atenção, cada um que chegava dava os parabéns e corria para apreciar o foco da festa, o bolo. E assim foi até o dia raiar naquele empurra, empurra na casa lotada, musica alta, uma festa para ficar na historia do bairro e no coração de Sofia, que apesar de perder em atenção para o bolo, era uma felicidade só. E assim foram felizes para sempre!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Recatada

Jessica era uma menina de 18 anos, bonita, bem educada, estudou nos melhores colégios da capital e extremamente mimada pela mãe que fazia tudo que a filha queria sem medir esforços. O pai embora a cobrisse de todas as vontades, não deixava transparecer que a filha podia ter dele tudo que desejasse. Exercia uma espécie de jogo, tentando aparentar um pai durão, mas Jessica sabia muito bem jogar o jogo e conseguia tudo que pretendia de seu progenitor e mais um pouco.

Seus pais eram D. Eudócia, do lar, e de Sr. Ernesto, fazendeiro muito bem sucedido da região. Jessica era filha única do casal e aos olhos dos pais era comportada, recatada e até mesmo tímida demais para os avos paternos, Sr. Astrogildo e Sra.  Mega, que residiam na fazenda junto com a família. Os avos achavam a neta muito introvertida para uma jovem dos tempos atuais e viviam a incentivá-la a sair mais da fazenda, ir até a cidade passear e a voltar a estudar, fazer uma faculdade, mas a jovem sempre respondia que se sentia feliz na companhia da família e que não carecia mais de estudos, que queria mesmo era a vida calma do campo. Mas o que eles não imaginavam é que na realidade Jessica era uma desavergonhada e assanhada quando estava longe da mira da família. Já tinha se enroscado com todos os empregados da fazenda em cada canto de mato, deixando-os em polvorosa só de pensar que podiam ser pegos pelo pai da moça, mas não conseguiam resistir aos encantos de Jessica. Somente Irineu não lhe dava trela, ele era o encarregado, uma espécie de gerente da fazenda. Era um homem mais velho que os outros empregados que eram jovens como a filha do patrão. Irineu tinha uns trinta e poucos anos, homem serio, atento ao seu trabalho e se fazia de desentendido em relação ao assedio de Jessica que estava sempre a lhe provocar sem sucesso.

Jessica todos os dias, após o café, saia de casa com a desculpa de que gostava de caminhar pela fazenda e de andar a cavalo. Dizia que seu passeio preferido era ir até a beira do rio, que ficava longe da casa grande, o que causava apreensão a sua mãe, mas que com o tempo foi relaxando em relação a segurança da filha que afirmava cavalgar muito bem, o que realmente era verdade, e que não havia motivo para preocupação. Porém o que Jessica queria mesmo era ficar longe dos olhos de todos da casa sem causar suspeitas para ir ao encontro dos empregados da fazenda e ficar se exibindo e escolhendo um a cada dia para saciar seus anseios. Sua primeira opção era sempre Irineu, passava por ele dava bom dia, fingia cair, ele gentilmente a ajudava, mas com tanto respeito que a irritava. Ela insistia, levantava o vestido, passando suas pernas entre as dele, mas de nada adiantava, Irineu sempre dava um jeito de sair das situações delicadamente fazendo com que Jessica ficasse louca de raiva com tamanho desprezo e saindo em direção a atacar outro funcionário da fazenda, que diferentes do encarregado caiam a seus pés superando o medo de serem flagrados em pleno ato de fornicação com a patroinha.

Um belo dia, ao voltar de seu passeio matinal, Jessica teve a agradável surpresa de dar de cara com Irineu sentado na sala a espera de seu pai. Todas as manhãs eles se reuniam para tratar de assuntos da fazenda, mas sempre no escritório, onde nenhuma mulher da casa tinha acesso, porém naquele dia foi diferente. O pai da moça estava recebendo um fornecedor de ração para gado no escritório e Irineu teve que esperar na sala. Jessica ao entrar se espantou com a presença, inesperada, de seu favorito, mas em um segundo estava refeita do susto e não perdeu a oportunidade, sentou a seu lado, levantou o vestido e pôs uma das mãos do rapaz entre as suas coxas: - Você tem certeza que não quer experimentar isso? Não sabe o que está perdendo. Pegou a outra mão de Irineu e passou a língua em seus dedos. Tudo isso aconteceu em uma fração de segundos que pareceu uma eternidade para o encarregado da fazenda que pela primeira vez se sentiu desconfortável com o assédio da menina, pois se alguém entrasse na sala e visse tal cena ira ser difícil de explicar e sua reação foi a de empurrar Jessica que caiu estatelada no chão bem na hora que o pai entrava. - O que aconteceu aqui? Perguntou Sr. Ernesto se dirigindo para ajudar a filha que levantou rapidamente dizendo que havia escorregado no tapete saindo em seguida e o pai de nada desconfiou, apenas sacudiu a cabeça e deu dois gritos por Cida, uma das ajudantes que trabalhava na casa, que chegou à sala esbaforida para atender a ordem do patrão de tirar o tapete do caminho. Já Irineu, respirou fundo e sentou no sofá imóvel tentando não demonstrar seu nervosismo, pois sempre se saia bem das investidas de Jessica, mas nunca tinha passado por uma situação limite como aquela. Mas logo se acalmou e o patrão nada percebeu e se ativeram a falar sobre as questões da fazenda.

Jessica chegou ao seu quarto saltitante de alegria.  Havia percebido o nervosismo de Irineu e apesar de saber que seu descontrole era devido somente ao risco de alguém vê-los em cena tão comprometedora, sentia-se excitada por ter conseguido mexer com o equilíbrio do rapaz. Mesmo que não fosse de desejo por ela, mas já era alguma coisa e deitou na cama e ficou sonhando com seu objeto de desejo, mas foi interrompida por Cida batendo a porta a chamando para almoçar. – Jessica! Jessica! Seu pai está chamando para almoçar, vê se não demora. Jessica não estava com fome, estava inebriada por seus pensamentos eróticos em relação a Irineu, mas sabia que não adiantava dizer que não queria almoçar, seu pai era tradicional com a hora das refeições, gostava de toda família a mesa, mesmo que fosse para não comer, mas todos tinham que estar presentes. Entretanto seu apetite logo foi despertado quando chegou à sala e se deparou com Irineu que quando a viu ficou gelado e olhava para todos os lados, menos para ela e tentou declinar do convite do patrão para almoçar, mas não teve jeito, Sr. Ernesto praticamente o intimou a ficar. - O que é isso rapaz, recusando um convite meu para almoçar? De maneira nenhuma. Faço questão. Todos se sentaram e Jessica estava esfuziante com a presença de Irineu e mais ainda por notar o incomodado que estava lhe causando e rapidamente, antes que ele tivesse chance de evitar, tratou de sentar em uma cadeira do lado da dele e a todo instante passava a mão por entre as pernas do rapaz que respirava com dificuldade e mal conseguia tocar na comida, o que chamou atenção do pai de Jessica. – Mas que diabos você tem Irineu? Não tá gostando da comida não é? Tá parecendo menino manhoso, enrolando com esse prato e não comendo nada. Vou chamar a Matilde e a mandar fazer um ovo frito para você. Irineu não sabia o que fazer, sua vontade era dar uma desculpa e sair dali. Mas não podia, acabou ficando excitado com as caricias de Jessica as quais não estava tendo como evitar, pois se tentasse tirar a mão da menina do meio de suas pernas poderia chamar atenção. – Não precisa se incomodar não patrão. A comida tá ótima, muito boa é que eu como devagar mesmo.  Sr. Ernesto não se impressionou com a explicação do encarregado da fazenda. – Então come logo, não fica enrolando que nem menino pequeno. Come que nem gente grande. D. Eudócia vendo o constrangimento do rapaz, mediante ao comentário de seu marido, que julgou de extremo mau gosto, tentou aliviar dizendo que o certo era comer devagar, mastigar bem os alimentos. Mas Sr. Ernesto deu uma sonora gargalhada dizendo que então ele devia ter dentes no estomago que o ajudavam a mastigar.  Ao terminarem o almoço, Jessica, para alivio de Irineu, pediu licença e saiu da mesa. Já estava satisfeita com sua dose de tortura do dia, achou que já era o bastante, estava feliz por ter conseguido deixar o rapaz perturbado e sem ter como fugir de sua investida e, além disso, não queria de modo algum chamar atenção do pai e dos demais para seus atos.  Toda família se retirou da mesa após alguns minutos, tempo suficiente para Irineu retornar ao seu estado normal e poder se levantar e sair imediatamente. O que fez sob a desculpa que precisava voltar ao trabalho e recusou o café que foi servido na sala de estar. Tudo que ele queria era afastar-se dali e quando alcançou uma boa distancia da casa grande se encostou perto de um poço, puxou um balde e jogou sobre a cabeça tentando esfriar a tensão que havia passado.

À noite, a fazenda toda dormia menos Irineu e Jessica, cada um em seu quarto, perdidos em seus pensamentos sobre a situação que viveram. A menina estava delirando lembrando-se da reação do encarregado da fazenda, que era sempre tão indiferente aos seus afagos e desta vez havia correspondido com os sinais inevitáveis do corpo as suas caricias. Ficou horas refletindo como seria sua estratégia futura para conquistar em definitivo a atenção de Irineu. Andou por todo o quarto, olhou inúmeras vezes pela janela em busca de alguma ideia, pensou em ir aos aposentos do rapaz, que ficavam na parte de trás da fazenda, mas desistiu em seguida. Mesmo sabendo que todos dormiam não queria se arriscar em ser descoberta. E de tanto pensar acabou adormecendo. Já Irineu deitado em sua cama e olhos fixos no teto lembrava-se dos momentos de aflição que havia vivido e repetia para si mesmo, uma centena de vezes, que sua excitação foi pura e simplesmente uma reação física, que nada teve a ver com o fato de ter sido Jessica que estava lhe apalpando. Mas por mais força que fizesse não parava de pensar na sensação de prazer que sentiu ao toque da moça e como não conseguia dormir saiu para caminhar e buscar o sono. Mas quando deu por si o sol já havia raiado e o galo cantava anunciando o inicio de um novo dia e resolveu voltar tomar um belo banho frio para despertar e se apressar para as tarefas da fazenda achando que o ajudariam a equilibrar a cabeça.

Jessica, apesar de ter dormido já no alto da madrugada, pulou da cama no primeiro canto do galo e surpreendeu Irineu ao aparecer na coxia dos cavalos se jogando em seus braços e se pendurando em seu pescoço e entrelaçando as pernas por sua cintura, de forma tão rápida e inesperada, o que o deixou sem ação. – Bom dia meu príncipe! Vim tomar café com você! A reação de Irineu foi a de sempre, de empurrar Jessica. Entretanto, desta vez parecia que suas forças haviam diminuído e não conseguiu se livrar das amarras de sua admiradora, que se sentia muito satisfeita de ver que estava dominando seu alvo. Irineu ficou nervoso e descontrolado e começou a rodar com Jessica agarrada a ele tentando se soltar de seu enlace, mas sua resistência foi diminuindo e quando viu estava no meio de um monte de feno caído por cima dela com o coração a bater quase saindo pela boca. – Jessica! Que diabos você está fazendo, me solta! Daqui a pouco passa alguém aqui... Irineu estava esbravejando ao mesmo tempo em que parecia querer se entregar aos encantos de Jessica que percebendo a oportunidade puxou o encarregado pelo pescoço e deu-lhe um beijo acabando com suas forças de vez.  Os dois se entregaram ao fogo da paixão só tendo como testemunha, Ligeiro, o cavalo preferido do dono da fazenda que relinchava erguendo as patas dianteiras para o alto como que a protestar pelo ato que assistia, mas em nada atrapalhou os amantes que pareciam nem notar sua presença. A partir daquele dia os encontros entre os dois ficaram frequentes, mas Jessica sempre dava em jeito de estar também com os demais empregados da fazenda. Era realmente uma safada, ordinária, deitava com todos e agora estava feliz da vida, pois havia conquistado o ultimo que faltava, Irineu. E o pior é que todos pensavam ser único na vida da moça, pois nenhum deles ousava em abrir a boca sob as ameaças da patroinha de que se o pai soubesse de alguma coisa mandava capar o infeliz.

Enquanto isso Irineu estava realmente apaixonado, o que durante muito tempo tentou não reconhecer, mas agora havia cedido por completo e não queria mais fugir. Seu desejo era de falar com Sr. Ernesto a respeito dos dois e pedir a mão da moça em casamento, mas Jessica não queria de jeito nenhum que o pai soubesse. Não pretendia nada de muito sério daquele relacionamento e sabia que se o pai viesse, a saber, ira obrigá-la a casar, o que nem de longe era seu desejo e tentava ganhar tempo, dizendo que ainda não era hora, que precisava preparar a família e Irineu acreditava.

Irineu, apesar de continuar a ser um funcionário exemplar, andava disperso, só pensava em Jessica, na hora de encontrá-la e por onde ela andava quando não estavam juntos e ele não a estava vendo nos arredores da fazenda. Sr. Ernesto, sempre muito atento a seus empregados, notou a mudança de comportamento de Irineu e passou a questioná-lo. – O Irineu, o que é que está acontecendo com você homem? Tá parecendo que tá no mundo da lua! Que diabos! Irineu tentava disfarçar, dizia que não era nada, ou que estava pensando em alguma coisa da fazenda que tinha para resolver, mas não convencia muito ao patrão que passou a observar de perto o empregado.

Certo dia, Irineu estava esperando por Jessica na coxia, como todas as manhãs, mas ela se atrasou por cerca de uma hora e meia. – Jessica o que aconteceu? Pensei que não viesse mais. A essa altura seu pai já deve estar dando por minha falta... Jessica deu-lhe um beijo e se desculpou, dizendo que havia ficado lendo até tarde e por isso perdeu a hora de acordar e que ele não precisava se preocupar que o pai ainda estava tomando café. Irineu, como sempre, nunca a questionava, apesar de ficar com a impressão de que não falava toda a verdade, mas não discutia. Talvez pelo fato de que não tinham muito tempo para ficarem juntos, não queria desperdiçar nem um segundo. E mais uma vez suas suspeitas estavam certas, Jessica realmente havia dormido tarde, mas não devido a leitura e sim porque estava com o jardineiro da casa que havia pulado a janela de seu quarto e lá ficado até quase o amanhecer. Mas quanto ao pai, havia dito a verdade, ele realmente ainda estava tomando café quando ela saiu.

Sr. Ernesto, que já há algum tempo vinha notando diferença no comportamento de Irineu, achou estranho que até àquela hora não tive aparecido na casa grande e quando terminou seu café saiu a sua procura. Bateu em seus aposentos e como não obteve resposta foi perguntado a um e a outro até que ao passar pela coxia escutou um gemido e foi ver o era. Enquanto isso, lá dentro, Irineu que nem de longe podia suspeitar o que estava por vir se deliciava nos braços de Jessica, que apesar de também estar entregue ao clima de ardor e nem parecer que havia passado quase que a noite toda na fornicação com o jardineiro, tamanha era sua disposição, era muito mais atenta aos movimentos externos que seu parceiro e ao ouvir passos do lado de fora o empurrou para o lado e se escondeu atrás de um monte de feno, levando com ela as roupas que estavam jogadas no chão e lá ficou imóvel. Já Irineu levou alguns segundos para entender o que se passava. Levantou confuso, virou para o lado e deu de cara com Sr. Ernesto de pé a lhe olhar a espera de uma explicação. – Irineu, será que você pode me dizer o que isso significa?  Irineu não sabia o que dizer e muito menos o que fazer, olhava em volta a busca de Jessica e de suas roupas e quase sem querer deixou escapar que procurava por alguém. – Mas aonde ela se meteu?  Sr. Ernesto abriu mais ainda os olhos, que já estavam esbugalhados, e quis saber de quem ele estava falando e por mais que o pobre do encarregado da fazenda dissesse que não estava com ninguém, o patrão não acreditava, perguntando insistentemente o que então ele estava fazendo nu na coxia. Jessica assistia tudo de seu canto e até sentiu certa pena de Irineu ao vê-lo correr de um lado para outro procurando por suas roupas e tentando se desvencilhar de seu pai, mas não apareceu e ficou a observar a cena. E nesse meio tempo, Matilde, cozinheira da casa que havia ido pegar umas verduras na horta que ficava ali perto para preparar o almoço, foi atraída pelos gritos e se aproximou e viu Irineu nu de costas e Sr Ernesto de pé a sua frente falando sem parar. Matilde ficou na entrada da coxia observando a cena bem quieta para não ser notada. A princípio só queria saber o que estava acontecendo ali, mas gostou tanto do que viu que foi se esticando para ter uma visão melhor de Irineu e acabou tropeçando em umas madeiras que estavam no chão e se estatelou no chão, chamando a atenção dos dois homens que se viraram para ver o que aconteceu e deram com a cozinheira caída no chão. Quando Matilde viu Irineu de frente, não conseguiu se controlar, soltou um suspiro tão profundo que o deixou vermelho de vergonha e mais do que depressa pegou um monte de feno e colocou na frente tentado esconder as genitais. Sr Ernesto olhou com ar malicioso para Irineu, que parecendo ler seus pensamentos, começou a balançar a cabeça e a gritar que não era nada disso que ele estava pensando e quanto mais o patrão via o desespero nos olhos do encarregado, mais certeza ficava de suas suspeitas. E Matilde, nem se deu ao trabalho de levantar, ficou deitada se deliciando e torcendo para Irineu tirar a proteção da frente e deixá-la apreciá-lo mais um pouco. A cozinheira da fazenda era uma mulher baixa, deveria ter um metro e meio, mas bem pesada, uns cento e vinte quilos e nenhum dente na boca para contar história e era a empregada preferida do patrão, ele era muito grato a mãe dela que havia cuidado da mãe dele que ficou muito doente durante anos até morrer.

Irineu não teve escapatória, Sr. Ernesto estava convencido de era com Matilde que ele estava na coxia e para complicar ainda mais a situação do encarregado, a cozinheira confirmou a versão dada pelo patrão, por ver nela uma oportunidade de finalmente ter um homem, o que sempre quis e nunca conseguiu. Sr. Ernesto então decidiu que os dois teriam que casar para lavar a honrar da moça. Irineu implorou a Jessica para contar a verdade, disse que a amava e pediria sua mão em casamento. Porém ela disse que seria pior, que o pai nunca acreditaria e que o melhor era ele casar com Matilde sob a pena do pai poder mandar capá-lo e prometia que iria continuar a encontrá-lo às escondidas e assim tudo estaria resolvido. 

Irineu estava consternado, sem alternativa, sabia que se não obedecesse as ordens do patrão ele certamente cumpriria a ameaça de mandar lhe cortar seu bem mais precioso e dar para o gado de ração e assim em uma noite de lua cheia na capela da fazenda ele se casou com Matilde. A cozinheira era a noiva mais feliz que aquela região já tinha visto e o noivo mais parecia que estava indo para um velório, o dele, tamanha era sua desolação. Os dois se posicionaram na frente do padre e a primeira coisa que a noiva fez foi cochichar no ouvido do noivo que mal podia esperar pela lua de mel. Irineu desmaio, caiu ao pé do altar, o que causou forte alvoroço, mas foi logo sanado por Sr. Ernesto que tirou o facão da sinta e passou por entre as pernas de Irineu, que acordou de um pulo e se entregou ao inevitável matrimonio.



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Reunião de Condomínio

Dr. Leopoldo, médico aposentado e exemplar chefe de família, tinha muito orgulho de ocupar o posto de sindico do edifício em que morava há mais de trinta anos. Foi um dos primeiros moradores, tendo sempre feito questão de estar ciente de todas as questões do condomínio e nos últimos dez anos, com intuito de preencher o tempo após ter se aposentado, resolveu se candidatar a sindico tendo sido eleito por unanimidade seguidamente.
Dr. Leopoldo vivia sozinho em um amplo apartamento de quatro quartos na Tijuca, que fez questão de conservar, por mais que seus três filhos tivessem insistido para ele vender e se mudar para um menor, quando ficou viúvo, mas ele dizia que seria bom manter o apartamento grande para quando os filhos viessem lhe visitar com os netos e noras, o que só acontecia no Natal e raramente no dia dos pais e mesmo assim para seu pesar, embora nunca demonstrasse qualquer tipo de insatisfação, nunca dormiam por lá. Depois de alguns anos, os filhos desistiram de tentar fazer com que o pai se mudasse.
As atividades de sindico preenchiam o tempo daquele homem solitário e ainda cheio de energia. Estava sempre à frente de tudo que se passava no prédio, havia conseguido reduzir as contas do condomínio, resolvia qualquer problema a qualquer hora do dia ou da noite, os moradores nunca estiveram tão satisfeitos com um sindico e ele se sentia realizado em suas funções. Tudo corria muito bem até que um novo morador chegou e começou a fazer uma obra interminável causando alguns transtornos.
As reclamações começaram pelo vizinho do apartamento 901 que teve seu quarto inundado por um vazamento da obra do andar de cima. Se isso já era um problema, mais grave ainda ficou pelo fato ter ocorrido às três horas da madrugada não tendo o morador hesitado em bater a porta do sindico em busca de uma solução. - Dr. Leopoldo... Desculpe-me pela hora, mas como pode ver temos um problema, o senhor tem que vir comigo agora... Dizia o morador apontando para si mesmo efusivamente. O sindico que ainda tremia pelo susto de ter sido acordado no meio da madrugada, não entendeu bem o que aquele homem de pijama e completamente molhado fazia em pé a sua porta tentando lhe convencer a ir com ele sabia-se lá pra onde. -Mas o que há de tão grave? O que foi que houve? Habílio, o morador do apartamento 901, não deu chance ao sindico de recuar e o agarrou pelo braço e praticamente o arrastou até seu apartamento, dizendo que ele tinha que ver com sues próprios olhos o que estava acontecendo. Ao chegarem, a água já estava por todo o apartamento, mas já tinha parado de vazar pelo teto do quarto e finalmente o sindico pode entender o desespero do morador que lhe informou que acordou com um jato de água sobre ele e que antes de ter ido acordá-lo tentou por várias vezes, mas sem sucesso, contato com o vizinho de cima. –Estou indo lá agora ver o que se passa... Dr. Leopoldo partiu em direção ao apartamento 1001 seguido pelo Sr. Habílio. Pensou por um momento que não deveria devido à hora, mas não tinha outra solução tinha que tocar a campainha, blim blom... - Boa noite, a que devo a honra da visita? Querem entrar? O morador do apartamento 1001 atendeu a porta, enrolado em uma toalha, comendo um enorme sanduiche e nem parecia que estava no meio da madrugada, dado a naturalidade com que recebeu seus visitantes. O sindico pediu desculpas e explicou o que estava acontecendo e que precisava de autorização para verificar se havia algum problema com a obra que pudesse ter causado o vazamento. Nicolau, era o nome do morador do apartamento 1001, olhou por cima do ombro do sindico e deu de cara com Habílio de pijamas ainda molhado e imaginou que deveria ser seu vizinho de baixo e caiu na gargalhada, - Hahahaha..., nossa eu te acordei? Desculpe... Pelo visto não deu muito certo. Habílio que já estava com os nervos à flor da pele e sem entender qual era a graça, quase partiu para cima do vizinho com um belo soco se não fosse o sindico ter intervindo. – Tá rindo do que? Não tem graça nenhuma... Nicolau percebeu sua inconveniência, pediu desculpas e os convidou para entrarem para que pudessem ver do que estava falando e os o dois o seguiram até o banheiro. – Como os senhores podem ver, eu fiz uma pequena obra. Mudei alguns cômodos de lugar... troquei o banheiro com o quarto, à sala com a cozinha... E agora estava acabando de testar o banheiro, com meu primeiro banho e ia começar a testar minha cozinha nova. Querem um cafezinho?... O sindico perplexo, olhava para Nicolau que estava na maior calma do mundo e o interrompeu bruscamente, deixando de lado sua calma e cordialidade de sempre. - Não se atreva a abrir mais nenhuma torneira desse apartamento ou terei que tomar medidas legais contra o senhor. Vamos esperar amanhecer o dia para ver o que vamos fazer para consertar os estragos causados por essa sua obra desastrosa... Nicolau passou da aparente tranquilidade para a hostilidade e foi partindo para cima do sindico e do vizinho do andar de baixo os colocando para fora do apartamento. – Escuta aqui o Sr. Sindico, na minha casa mando eu entendeu?  O Sr. manda é no prédio, no meu apartamento não! Ninguém vai entrar aqui para dizer o que eu tenho ou não que fazer com minha obra, que está um espetáculo... E quer saber do que mais? Vou continuar testando todas as torneiras, que por sinal são lindas e me custaram uma fortuna. Dr. Leopoldo e Habílio ficaram estupefatos do lado de fora sentindo o trepidar da porta batida com violência. – E agora Dr. Leopoldo, o Sr. Não vai fazer nada? Esse louco vai destruir meu apartamento e os dos andares de baixo também se continuar a jorrar essa água toda em limites... O morador do apartamento 901 estava aos berros no corredor e o sindico tentou acalmá-lo antes que acordasse todo o prédio, dizendo que fosse para casa que providências imediatas seriam tomadas e assim Habílio foi para seu apartamento, embora contrariado e desconfiado, cuidar de secar toda aquela água.
Antes das sete horas da manhã o interfone do sindico começou a tocar, o que ele já esperava que fosse acontecer. – Bom dia, Dr. Leopoldo, é o Valdemar..., era o porteiro da manhã, - Dr. tem um monte de morador aqui na portaria reclamando que não tem água no prédio... Eu disse a eles que o Sr. Mandou fechar, devido a um probleminha, mas eles querem saber quando é que vai abrir. Eu já não sei mais o que fazer, cada hora chega mais um aqui... O sindico respirou fundo e pediu ao porteiro para avisar que ele já ia descer. – Calma minha gente que o Dr. já está descendo aí...
- Bom dia senhores, parece que temos um contratempo... Os moradores estavam enfurecidos e se pudessem tinham voado no pescoço do sindico. - Contratempo? O Sr. Chama isso de contratempo? Tenho que trabalhar e não pude nem escovar os dentes... Não tem água nos banheiros, na cozinha...  Como o Sr. fecha tudo dessa maneira sem avisar? D. Marlene moradora do apartamento 201 era uma das mais exaltadas e por mais que o marido, Sr. Ernesto, tentasse fazê-la se acalmar e escutar as explicações do sindico não adiantava ela continuava a gritar. Dr. Leopoldo, parecendo refeito do susto da madrugada e de posse de sua calma e cordialidade de sempre, esperou que a senhora em questão acabasse com seu desabafo e explicou o que estava acontecendo e disse que não lhe restou outra opção a não ser fechar a água até que se encontrasse uma solução. Agora foi a vez do morador do apartamento 505, Sr. Romeu, perder a calma. – Quer dizer que vamos ter que ficar esperando até quando? Temos que ter uma solução imediata... Não podemos ficar sem água? Pronto o caos estava instalado e em menos de meia hora praticamente todos os moradores tinham descido, a maioria para reclamar e alguns para ver do que se tratava toda aquela confusão. Dr. Leopoldo tentava em vão acalmar a todos, usando o argumento que estava a caminho um profissional para acertar os estragos e que ele iria conversar com o dono da obra para que o mesmo permitisse a entrada no apartamento. No meio de toda aquela confusão adentra pela portaria, o morador do apartamento 1001, o dono da fatídica obra.     – Bom dia senhores... O que está havendo por aqui? É alguma reunião de condomínio?  Não me lembro de ter recebido nenhuma convocação.  Todos pararam de falar e se voltaram para ele que por sua vez parecia bem tranquilo não se dando conta do problema ali discutido e continuou com seu interrogatório descabido. – Sr. sindico, o Sr. vai me desculpar, mas aqui na portaria não é lugar para se fazer uma reunião... Dr. Leopoldo perdeu a paciência e se pós na frente de Nicolau e já ia armar uma resposta quando os moradores quase que em coro disseram que seria providencial fazer uma reunião de condomínio e exigindo que o síndico começasse de imediato. – Mas qual é o assunto tão urgente assim que não pode esperar? Perguntava Nicolau com sua irreverência irritante. – A sua bendita obra!!! Esbravejaram os moradores enlouquecidos. O sindico se viu em uma situação difícil e não tendo outra opção sugeriu que todos se encaminhassem ao salão de festa do prédio para uma reunião de emergência. – Bem senhores... Estamos aqui reunidos para tratar de um assunto de grande urgência para todos e tentar conseguir uma solução de imediato, como se faz necessário. E mais uma vez Nicolau, parecendo minimizar a questão, interrompeu o discurso do sindico e se pós a falar. –Queridos vizinhos não vejo porque tanto tumulto em relação a minha magnífica obra... Se vocês me derem cinco minutos, posso explicar tudo como foi feito e o que é preciso fazer para acertar esse pequeno probleminha e depois se quiserem abro meu palácio para visitação e aposto que muitos de vocês vão até querer me contratar para reformular seus apartamentos. Agora foi a vez do sindico interromper e quase gritando pedir para que Nicolau se sentasse e deixasse que a reunião continuasse, argumentando que o que ele estava propondo era um completo absurdo. Porém os condóminos levantaram quase de uma só vez e aclamaram para que Nicolau continuasse com suas explicações e o sindico não teve outra saída a não ser conceder a palavra ao morador que continuou sua oratória, agora mais fortalecido. –Bem senhores, minha obra é uma arte da arquitetura... Tudo bem... Reconheço que causei alguns problemas, mas que são fáceis de serem solucionados. É só concertar os canos da coluna do prédio, que foram acidentalmente furados... O morador do apartamento 901 deu um grito de pura ira dizendo que Nicolau estava sendo irônico e não estava dando a devida importância ao assunto, mais foi quase que agredido pelas mulheres que queriam escutar tudo sobre a tão fantástica obra de Nicolau. E ele continuou falando por mais uma meia hora, dizendo que as inovações valiam a pena o transtorno causado e ofereceu a quem quisesse ver seu apartamento para verificar de perto as belezas que foram feitas. Debaixo de muitos protestos dos maridos que queriam providências imediatas para resolver a questão da impossibilidade de ligar a água do prédio, as mulheres partiram em retiradas seguindo Nicolau para verem seu apartamento e ficaram encantadas com as modificações, esquecendo do problema que estavam enfrentando com a falta da água. Após uns quarenta minutos, voltaram na maior animação, todas querendo copiar as modificações feitas, pelo agora ídolo das moradoras, ilustríssimo Sr. Nicolau. Ao chegarem ao salão, os homens estavam em polvorosa, discutindo com o sindico que não sabia mais o que fazer para acalmá-los.  – A obra está fantástica, o Sr. Nicolau é mesmo um inovador! Fugiu a todos os padrões... Vou querer fazer igual lá em casa... A moradora do apartamento 801 foi a primeira a entrar no salão mostrando seu encantamento com o que viu e logo teve seu discurso apoiado pelas demais mulheres. –Mas isso é um absurdo... Esbravejou um dos maridos inconformado com a mulher. – Você está maluca? Não vou fazer obra nenhuma, quero resolver o problema da água que não pode ser ligada por causa do estrago feito por esse inconsequente. Todos os homens o seguiram, mas foram abafados pelas mulheres que estavam sendo lideradas por Nicolau que pediu a palavra, que foi dada tendo em vista o entusiasmo das mulheres que lhe apoiavam, ficando os maridos sem ter outra opção a não ser deixá-lo falar. –Senhores, como podem ver as senhoras adoraram minhas inovações. Os estragos podem perfeitamente serem resolvidos como já coloquei e tudo ficará bem... Agora foi a vez do sindico de manifestar, - E quem vai arcar com o custo? As coisas não são tão simples assim como o Sr. quer fazer parecer... Nicolau tomou de assalto a palavra antes que os demais pudessem ter a oportunidade de se colocar do lado do sindico. – O condomínio naturalmente... Foi um alvoroço e quase saiu tapa se não fosse a moradora do apartamento 701 se colocar na frente de Nicolau para defendê-lo das agressões. – O deixem acabar de falar e vão ver que só temos a ganhar, por favor, senhores. Muito a contragosto, os homens se sentaram e escutaram o discurso de Nicolau que falou por cerca de duas horas, sobre as vantagens que teriam se fizessem as modificações nos apartamentos, que os imóveis seriam valorizados e que o custo com o conserto na coluna do prédio seria amplamente compensado. No final metade da platéia parecia convencida, não só pelas explicações de Nicolau, mas também pelas mulheres que estavam enlouquecidas pela possibilidade de fazer o que julgavam iria modernizar os apartamentos. Porém, o síndico que havia deixado praticamente a reunião seguir por conta própria, se levantou e tomou a palavra, o que não foi fácil dado a confusão instalada no recinto. – Senhores, senhores... Por favor, um minuto, acho que como síndico, tenho o direito a palavra. Todos calaram e se colocaram prontos para ouvir. – O que está sendo falado aqui é um verdadeiro despropósito... Essas modificações implicam em mudança da estrutura do prédio, colocando em risco a própria segurança dos senhores... Como sindico não posso admitir que isso vá para frente... Foi um alvoroço só, as mulheres gritaram, pularam, puxavam os maridos pelo braço para que falassem alguma coisa e por fim, estavam com Nicolau suspenso no alto aclamando para que o síndico fosse deposto e que ele fosse eleito em seu lugar. O síndico tentou acalmá-las pedindo a ajuda dos maridos, mas não teve jeito, foi destituído do cargo e Nicolau assumiu de imediato e sua primeira medida foi cobrar uma alta taxa de condomínio para fazer as obras de reparo da coluna e em seguida implantou uma taxa de consultoria de obra para quem quisesse suas orientações para efetuar as loucas alterações nos apartamentos, medida que foi seguida por quase todos os moradores, pelo menos os casados, tendo em vista que foi impossível conter a euforia das mulheres que os atormentavam sem parar até que decidissem a pagar a tal taxa.
Dr. Leopoldo ficou por alguns meses morando no prédio, mas não suportou a tristeza de ter sido tirado de seu tão amado cargo de síndico e ainda por cima ter que aturar os desmandos de Nicolau e resolveu seguir enfim os apelos dos filhos e vendeu seu apartamento. A venda foi feita para o vizinho do lado que atendendo aos apelos da mulher, que estava sob as orientações da consultoria de Nicolau, iria juntar os apartamentos e fazer um jardim de margaridas.

Dr. Leopoldo foi morar em um pequeno apartamento de quarto e sala em Copacabana, mas todo o dia a tarde ia dar uma volta pela Tijuca e visitar sua antiga moradia de tantos anos e em uma dessas tardes ao chegar à frente do prédio quase morrer de susto, pois o mesmo havia desabado em virtude das obras malucas de Nicolau. O prédio estava cercado por Bombeiros e pelos moradores que tentavam entender o que aconteceu e quando viram o antigo síndico ali parado olhando os escombros, só faltaram lhe atirar pedras dizendo que havia sido praga dele por despeito. O coitado teve que sair correndo antes que fosse atingindo pela fúria dos moradores e no caminho topou com Nicolau com a planta do prédio aberta no chão e se perguntando o que havia dado errado. Dr. Leopoldo se abaixou olhou nos olhos de Nicolau e lhe perguntou com a mesma ironia de sempre usada por ele, - Você quer que eu te diga o que deu errado Sr. Nicolau? E no aceno positivo de Nicolau, Dr. Leopoldo lhe respondeu, - Não ter lhe dado isso antes. E lhe acertou um soco no meio do nariz o deixando caído no chão e seguiu enfrente e nunca mais voltou por ali ou soube notícias de quem quer que fosse.

Perdida no viaduto do Fidelis

Zuleica acordou animada para o aniversário de 50 anos de Adelino, mas ainda não tinha certeza se poderia ir. Pois o lugar da festa era distante e tinha medo de voltar sozinha e não tinha conseguido nenhuma carona.

Adelino era o funcionário mais querido da repartição, todos gostavam dele e estariam presentes na festa e Zuleica, como os demais, fazia questão de ir e depois de muito pensar resolveu se vestir e seguir rumo à comemoração. – Não é possível que não tenha alguém lá que não vá vir aqui para os meus lados... Ou eu chamo um taxi... Ah sei lá, quando chegar lá eu vejo, o que não posso é deixar de ir ao aniversário do Adelino. E saiu pela porta cantarolando e fechando os brincos.

Ao chegar à festa Zuleica estava preocupada, pois pode ver que realmente era muito longe de sua casa e em um lugar de difícil a acesso. Para ir foi tranquilo, ainda estava de dia, mas estava apreensiva pela volta. A primeira coisa que fez, depois de cumprimentar o aniversariante, foi tentar achar alguém que fosse passar perto de sua casa na volta para que ela pudesse pegar uma carona, mas não encontrou. Gonçalves, um também colega de trabalho, vendo sua aflição se aproximou: - Zuleica não se preocupe, trate de aproveitar a festa. Pode deixar que eu te levo no viaduto do Fidelis, que é aqui perto, que tem um ponto de taxi que roda a noite toda. Fique tranquila. Zuleica agradeceu, mas não ficou a vontade com a oferta. – Obrigada, mas aonde é esse viaduto do Fidelis? Eu não conheço nada por aqui. Não sei não... posso me perder. É melhor eu ficar só um pouquinho e ir embora enquanto ainda está cedo. O motorista de taxi que me trouxe me disse que aqui a noite é muito difícil de conseguir um taxi, que até para chamar um é complicado tendo em vista que não tem sinal de celular. Gonçalves insistiu dizendo, que conhecia bem aquela região, que era para ela não se preocupar que se fosse preciso ele mesmo a levaria ou a colocaria num taxi e acabou por convencer Zuleica que caiu na festa sem mais pensar na volta para casa.


Zuleica estava se divertindo muito e achou ótimo ter concordado em ficar, mas lá pela meia noite procurou por Gonçalves para pedir que ele então a levasse no tal viaduto do Fidelis para que pudesse pegar um taxi e ir para casa. – Gonçalves... Já está tarde, acho melhor eu ir. Você poderia me levar no ponto de taxi? Gonçalves que já tinha bebido além da conta não queria saber de sair da festa. – Ah Zuleica! Por favor... Ainda tá muito cedo para ir embora. Já falei para você não se preocupar. Vou beber mais um pouquinho e já, já te levo, ok? Zuleica ficou meio contrariada, mas voltou para junto dos demais amigos e ficou esperando. Mas estava aflita e não conseguiu mais ficar a vontade, olhava o relógio de minuto a minuto e observava Gonçalves com receio de que ele fosse embora e esquecesse-se dela.

Finalmente às duas horas da manhã, quando já não havia quase mais ninguém no salão, foi que Gonçalves se decidiu a levar Zuleica. – Pronto Zuleica, é aqui. É só você andar até ali na frente que tem taxi à beça, dá até para escolher. Olha Zu... se eu não tivesse bebido um pouco além da conta eu mesmo te levava, mas acho que não dá,não... Gonçalves estava que não se aquentava e mesmo que quisesse levar Zuleica ela não teria aceitado. Mas o problema não era só esse, o local onde Gonçalves a estava deixando não tinha nenhum taxi a vista. E apesar de ser iluminado e até com certo movimento de pessoas circulando, era totalmente desconhecido para Zuleica, que mesmo assustada resolveu ir em frente e tentar chegar a casa o mais breve possível. – Tudo bem Gonçalves, pode deixar que eu me viro. Mas só me diz onde é que eu pego esse bendito taxi que não estou vendo nenhum por aqui. Gonçalves fez sinal com o braço na direção de um viaduto e deu um breve aceno de mão e saiu cambaleando de tão bêbedo que estava. Zuleica seguiu a indicação e quando chegou mais próximo pode ver uma placa pendurada em uma pilastra: “Viaduto do Fidelis”, e pensou aliviada que estava no local certo de pegar um taxi, conforme seu colega de trabalho havia lhe orientado. Mas olhou de todos os lados e nada de taxi e ninguém sabia informar onde conseguir um. O movimento de pessoas foi diminuindo e ela começou a ficar com medo. - Ai meu Deus que furada eu me meti. Aonde é esse tal ponto de taxi que o Gonçalves falou? Ah... só se for do outro lado... E subiu o viaduto, mas não conseguiu encontrar. Não passava nem taxi, nem ônibus, somente um carro ou outro, particular, que dava uma meia trava para olhar aquela mulher, parecendo perdida, no meio da rua o que só aumentava o medo de Zuleica que apertava o passo e os carros seguiam adiante. Pensou então em ver o celular para tentar ligar para pedir ajuda a alguém, mas sua tentativa foi em vão, o telefone além de estar completamente sem sinal, à bateria estava nas últimas e começou a ficar desesperada. Zuleica voltou para o viaduto e andava de uma extremidade a outra xingando Gonçalves e se mal dizendo por ter ficado até tão tarde na festa. - Ai aquele miserável do Gonçalves! Ele me paga! E eu sou mesmo uma estúpida, uma burra! Como é que vou sair daqui agora? Vou acabar tendo que ir a pé para casa! E o pior é que não faço a menor ideia para que lado ir. Ai!  Resolveu parar e tentar mais uma vez fazer com que seu celular pegasse quando foi surpreendida por um senhor, alto e de certa idade lhe cumprimentando o que quase a matou de susto. – Oi, boa noite moça. O que faz por aqui a essas horas? Já é muito tarde para uma mulher ficar sozinha na rua. Posso lhe ajudar em alguma coisa? Zuleica que estava de cabeça baixa mexendo no telefone deu um grito e um pulo para trás achando estar vendo um fantasma, pois o homem estava todo de branco, fumava um cachimbo e ela podia jurar que ele surgiu do nada, pois tinha certeza de que não tinha ninguém ali e não viu de onde ele saiu. Mal conseguia falar de tanto medo, mas arriscou: - Quem é você e de onde saiu? O senhor a olhou de cima em baixo, deu uma longa baforada em seu cachimbo e respondeu: - Eu sou o Fidelis, ora! Quem mais haveria de ser? E você é a Zuleica, não? Acho que já está na hora de voltar para casa. Vamos até lá em casa tomar um café que depois te levo. Zuleica estava tão surpresa que até esqueceu-se do medo e se aproximou: - Como assim, o Fidelis? Isso é alguma piada por acaso? E como sabe o meu nome? Foi aquele ordinário do Gonçalves que mandou você aqui para me assustar, não foi? Pois pode dizer a ele... O senhor a interrompeu a pegando pelo braço e os dois foram andando lentamente pelo viaduto. – Não é nada disso, se bem que você realmente não devia confiar em qualquer um, ainda mais em quem bebe demais como esse seu amigo. Eu conheço todos que passam pela minha casa, afinal moro aqui e tenho que tomar conta. Sabia que você viria me visitar. Zuleica não estava entendendo nada, mas estava curiosa em relação àquela figura surgida do nada. – O senhor mora aqui? Mas aonde? E como sabia que eu viria? Eu não vim visitar o senhor não, eu quero e ir para casa. O senhor sabe aonde posso pegar um taxi?

Os dois seguiram conversando até sumirem na poeira levantada por um enorme caminhão que atravessou o viaduto, o qual nem foi notado por Zuleica que não parava de questionar seu acompanhante.


Zuleica acordou tarde, porém cansada o que atribuiu à festa de aniversário que fora na noite anterior. Sentia a cabeça pesada e confusa com lembranças que achava ser de um longo sonho conflituoso que tivera. Estava em sua casa, na sua cama e ao virar para o lado deparou-se com um cachimbo sobre sua mesinha de cabeceira e deu um grito de puro susto e pavor. Cobriu-se até a cabeça dizendo para si mesma que precisava dormir mais um pouco e que devia ter bebido alguma coisa na festa que não lhe fez bem.

O VELORIO

Era um domingo chuvoso, triste mesmo. Podia-se dizer tratar de um dia perfeito para um velório.
Eugenia passou a noite acordada ao lado do corpo do marido morto que estava sendo velado na sala de jantar. Ela estava inconsolável e não atendeu de jeito nenhum aos inúmeros pedidos de amigos e parentes para ir descansar e retornar ao posto pela manhã.
A viúva fez questão que o velório fosse realizado em casa. Queria até que o corpo ficasse na cama, mas desta vez acabou por concordar com os argumentos de sua irmã mais velha e aceitou coloca-lo na mesa da sala de jantar.

Eugenia e o marido tinham uma boa situação financeira, viviam bem. Porém sem luxo, mais por causa dela que não gostava de ostentar, dizia que não precisava de muito para viver, que o básico e a companhia do marido lhe bastavam para ser feliz, só não esperava ficar viúva de forma tão repentina. Guilhermino, o marido morto, não pensava da mesma forma, gostava de gastar com o que tinha vontade, o que fazia escondido da mulher que vivia a lhe controlar os gastos, e foi em uma de suas extravagâncias que o coração veio a lhe faltar. Ele era um homem forte de seus cinquenta e poucos anos, aparentava ter uma saúde de ferro e tinha horror a médico, não ia nem amarrado. Nunca pisou em um hospital, nem para nascer e para morrer. Nasceu pelos braços de uma parteira na casa da avó materna e morreu na mesa do bar do Sr. Leopoldo, de infarto fulminante, no meio da comemoração pela vitória do campeonato de futebol do seu time de coração, ocasião em que estava custeando a bebida de todos do bar, o que fazia sempre que achava que tinha um bom motivo para celebrar. O médico ainda foi chamado às pressas, mas quando chegou não havia mais nada para fazer, já estava morto. Só restando aos companheiros, de bebedeira, levarem o corpo para casa e entrega-lo a viúva, que não entendeu como Guilhermino havia morrido em uma situação daquelas e passou a culpar os amigos pelo o ocorrido. Pois para ela o marido jamais ficaria na mesa de um bar bebendo até morrer se não fosse pela influencia de más companhias. E se não bastasse o fato da morte e as circunstância em que ocorreu, o que já teria sido o suficiente para desequilibrar Eugenia por completo, ainda teve o golpe dado pelo o dono do bar, Sr. Leopoldo, que não teve a menor sensibilidade e lhe entregou a conta da farra para que ela pagasse tendo em vista que o falecido assumiu a despesa antes de partir desta para melhor.   – Mas Sr. Leopoldo, o senhor deve estar enganado, o meu Guilhermino nunca teria assumido pagar por uma coisa assim... Ainda mais nesse valor exorbitante. Ele era um homem comedido. Não saía por aí torrando dinheiro. Sr. Leopoldo não era dado a gentilezas e não quis saber da dor da viúva e muito menos de sua dificuldade em se deparar com uma face do marido que ela, até então, desconhecia e não arredou pé. – O D. Eugenia... eu não quero saber de nada. O que eu não posso é ficar no prejuízo. Afinal de contas se seu marido morreu as dívidas dele agora são suas! Então, por favor, trate de me pagar que eu preciso voltar para fechar o bar e vir para o velório do meu amigo. A pobre da viúva vendo que seus argumentos de nada iriam adiantar, mesmo sem estar convencida da legitimidade da dívida e achando se tratar de algum equivoco do dono do bar, resolveu pagar e ir providenciar as coisas para o velório de seu amado marido. – Aqui está seu dinheiro Sr. Leopoldo. Agora se o senhor me der licença... Ela nem acabou de falar e o dono do bar já tinha, praticamente, puxado o dinheiro, conferido e saído em retirada.

Voltando ao velório...
Eugenia estava inconformada com a morte de Guilhermino e mais ainda pela maneira como ocorreu. Não acreditara na historia contata pelos amigos que trouxeram o corpo para casa, de que o marido estava bebendo com eles no bar desde cedo e que havia passado mal após ter ficado completamente bêbado. “Não é possível... ele não bebia assim”. Pensava fazendo força para se convencer que tudo aquilo era um forte e terrível engano. Mas seus pensamentos seguiam a lhe atormentar. “Se bem que eu troquei as roupas dele e o cheiro era de pura cachaça... Não, não... quer ver que alguém derramou pinga em cima dele e agora querem denegrir sua imagem, só pode ser... E essa história da conta que o Sr. Leopoldo veio me cobrar? Só pode ser algum engano, alguém que está se aproveitando da morte do meu Guilhermino para empurrar a divida para ele. Mas assim que acabar o enterro vou tirar isso a limpo, a se vou”. A pobre viúva estava atordoada pelos acontecimentos, mas seguia firme apegada a imagem de bom homem que tinha do marido, ou pelo menos fazia força para manter.

 O dia mal tinha raiado e a casa já estava cheia de amigos e vizinhos que não paravam de chegar. Eugenia teve dificuldades para fazer com que fossem embora no dia anterior, pois todos queriam ter passado a noite velando o corpo. Mas ela não permitiu, queria ficar sozinha com o marido em sua ultima noite em casa, mesmo que morto. Mas no dia seguinte, não teve jeito, a casa já amanheceu com gente na porta, o que causou certa surpresa a viúva, que não esperava um velório tão cheio. “Que estranho... não sabia que Guilhermino tinha tantos amigos assim...” Pensava Eugenia a cada desconhecido que chegava para lhe cumprimentar. Pois só conhecia os poucos parentes presentes e os amigos da igreja, que não eram muitos. A maioria ela não fazia a menor ideia de quem seriam e qual a ligação que tinham com o falecido, o que parecia ser muito próxima, dado ao estado de tristeza de todos. Mas o que mais lhe causou espanto foi quando começou a prestar atenção em uma conversa entre dois sujeitos, ditos amigos do defunto, sobre como eles iriam fazer para realizarem os churrascos de domingo sem o tão valoroso patrocínio do morto, que ele realmente iria fazer muita falta às tardes de celebração do bar do Sr. Leopoldo. E seguiu a prestar atenção às conversas dos inúmeros homens ali presentes, intitulados amigos de seu marido, que ela não conhecia. Todos estavam lamentando não a perda do amigo, mas sim o prejuízo que sua morte iria causar na organização das farras dominicais. A viúva não parava de pensar que tudo aquilo que estavam falando de seu marido não fazia o menor sentido. “Mas o que é isso?... Parece que todo mundo agora resolveu inventar histórias sobre o Guilhermino... E logo sobre esse assunto, não pode ser. Ele era um homem tão comedido, não era dado a gastos com futilidades. Bebida então nem pensar, vê se pode. Ele era um homem tão religioso, ia todo domingo a igreja, fazia suas orações... Festas no bar... Nunca! Ele ia sim naquele bendito bar do Sr. Leopoldo, mas só para ver o futebol. Só isso”.  Mas mesmo sem acreditar, seguiu de canto em canto procurando conversar com um e com outro e escutar as conversas que eram sempre sobre o mesmo assunto: - Que falta vai fazer o patrocínio do Guilhermino para as nossas farrinhas... Era a voz corrente nos quatro cantos do velório entre os “amigos” do morto.

Se Eugenia já estava estarrecida com as histórias, as quais fazia força para não acreditar, de gastos de dinheiro do marido com bebidas e festas para os amigos, mais desorientada ficou com a chegada de uma mulher que entrou sem falar com ninguém e foi direto se encostar à beira do caixão e a chorar tão alto que silenciou o falatório do salão. A viúva foi amparada por uma vizinha que já estava a observar a situação e correu para ajuda-la. – Mas o que é isso? Quem é essa agora? Isso foi a gota d´água! Como se já não bastasse toda essa gente, que eu não conheço, não sei de onde saiu e estão a chorar pelo meu marido como se fossem mais intimas dele do que eu, agora essa mulher! Eugenia estava começando a perder o controle e a vizinha, por nome Matilde, tentava em vão lhe acalmar. – Calma Eugenia, quer ver é da igreja... E veio orar por Guilhermino... Calma.  Os argumentos da vizinha não foram suficientes para amansar os nervos de Eugenia. – Como da igreja, se nunca a vi por lá? E com esse vestido, tão curto que dá para ver até a alma! Vou lá agora saber quem ela é! A vizinha mais uma vez tentou tranquilizar a viúva, mas não teve jeito, ela foi até a mulher tomar satisfação do porque chorava daquela forma exagerada pela morte de seu marido e o resultado não poderia ter sido pior. – Com licença, você pode me dizer quem é você e o porquê de tanto choro pela morte do meu marido? A mulher tinha cabelos loiros na altura dos ombros, uns vinte e poucos anos, corpo perfeito e olhar angelical, todos no velório a observavam e agora mais ainda para ver qual seria a resposta que ira dar a pobre viúva. Os amigos do bar, que sabiam o verdadeiro envolvimento da moça com Guilhermino, se entre olharam e se aproximaram procurando amenizar a situação, mas só serviu para piorar ainda mais o humor de Eugenia.  Paulo Aufredo foi o primeiro a tentar, se intrometendo na conversa antes que a tal mulher tivesse tempo de responder. - D. Eugenia, eu sinto tanto... tanto!... A senhora deve ter sofrido um grande golpe com a perda de nosso Guilhermino... Eugenia não deu a menor atenção e praticamente o empurrou para que saísse de sua frente e fez o mesmo com João e Batista que foram os próximos a se arriscarem e voltou a inquirir a mulher que a observava com olhar cheio de tristeza. – Então minha filha você pode me dizer... Mas antes de Eugenia completar a pergunta a criatura a sua frente caiu em um pranto e se jogou em cima do caixão como que querendo abraçá-lo e começou a gritar: - Perdi meu Guiguizinho!... Meu amorzinho!... Deixe-me ao menos chorar por ele! Eugenia não conversou, puxou a mulher pelo braço e a fez ficar de frente para ela e por mais que os amigos do bar tentassem impedi-la, dizendo que a tal mulher não passava de uma simples conhecida, não adiantou, Eugenia estava enfurecida e disposta a tudo para saber quem era aquela sujeita.   – Que história é essa de Guiguizinho? Quem é você afinal de contas?! E que diabos está fazendo no enterro do meu marido?! Ela perguntou e a mulher, até então desconhecida, não economizou na explicação: - Eu sou a Virginia. A Virgininha como o meu Guiguizinho gostava de me chamar... Ai que saudades... E você?... Ah... você deve ser a mulher dele, não é? Ele falava de você... Eugenia partiu para cima da tal da Virgininha a segurando pelos braços e sacudindo com força querendo saber exatamente o que o marido falava dela e qual era o verdadeiro relacionamento que os dois mantinham. Os amigos mais uma vez tentaram amenizar, mas não tiveram como, as duas começaram a discutir e ambas se jogaram em cima do caixão reivindicando a posse do defunto. O fuzuê estava formado, as mulheres estavam enfurecidas, não deram a menor atenção aos pedidos de calma e só pararam quando adentrou pela porta uma figura no mínimo inusitada gritando e querendo saber do morto, ao qual chamava de Guizão. Era um homem. No entanto, se não fosse pelo saliente gomo de adão e pela voz grave, podia-se dizer que era uma mulher extravagante. Pois tinha longos cabelos castanhos presos no alto da cabeça em forma de coque, usava um vestido até os pés de seda preta com bordados em prata, luvas de renda também pretas e sandálias e bolsa na cor roxa. Os olhos estavam perfeitamente maquiados com uma sombra cintilante prateada e enormes cílios postiços e a boca com um batom vermelho cor de sangue. Complementando o traje um monumental leque roxo, no mesmo tão das sandálias e bolsa, o qual abanava sem parar enquanto se aproximava do caixão e chorando se jogou por cima dele ignorando as duas mulheres que pararam a discussão e ficaram paralisadas observando o mais novo integrante do velório. Eugenia e Virginia se entreolharam, quase com cumplicidade, e perguntaram ao mesmo tempo: - Mas quem é esse agora? E que história é essa de Guizão? Como não houve resposta, as mulheres empurraram o tal homem vestido de mulher de cima do caixão e o indagaram enraivecidas querendo saber quem ele era. Por um momento estavam unidas em prol de saber o que estava acontecendo. – Eu sou a Afrodite! E vocês quem são? E que trajes são esses? Assim sem brilho, sem nada... Não acham que deveriam ter escolhido uma roupa melhor para vir aqui prestar a ultima homenagem ao meu Guizão? Que falta de respeito! Foi Eugenia que tomou a frente da conversa: - Olha aqui o D. Afrodite ou senhor sei lá quem você seja! Eu sou a esposa do Guilhermino! E o que eu quero saber é o que você era do meu marido e o que faz aqui no enterro dele?! Eugenia estava aos berros e até teria se esquecido de Virginia se não fosse por sua intromissão na conversa se intitulando a namorada do defunto, o que não pareceu afetar a mulher de Guilhermino que estava com todas as energias voltadas para saber se suas suspeitas, que a essa altura eram compartilhadas pelos demais participantes do velório, sobre a ligação de Afrodite com seu marido seriam confirmadas. Afrodite olhou para Eugenia com carinho e estendeu a mão em cumprimento, não sendo correspondida, mas em relação à Virginia mostrou espanto e descontentamento:    - Ah... muito prazer! Então você é a Eugenia, ele sempre falava de você. Mas dessa aí não! Nunca me falou nada de namorada. Virginia ficou histérica e quis tirar satisfações dizendo que era sim namorada de Guilhermino, mas foi logo interrompida por Eugenia que aos gritos a mandou calar a boca o que ela obedeceu sem questionar.  Eugenia então voltou a encarar Afrodite: - Afinal de contas quem é você e de onde conhece meu marido? A resposta, apesar de ter sido em de acordo com o que todos já haviam pensado, dado ao andamento da situação, causou um enorme alvoroço no salão. - Eu sou a noiva dele ora. Nós íamos nos casar... Mas Guizão dizia que não podia por sua causa, que ele não tinha coragem de te deixar, que precisava de mais algum tempo... Aí eu fui deixando, deixando... Até que no mês passado resolvemos ficar noivos. Ele até pediu minha mão para mamãe. Ele ia te contar tudo, mas não deu tempo... Desta vez Eugenia não suportou e desmaiou sendo amparada pelos amigos do bar que estavam de boca aberta com a revelação. – Nossa desta vez o Guilhermino surpreendeu mesmo!  Comentou Aurélio, um dos amigos e frequentadores do bar do Sr. Leopoldo. Foi uma confusão só, a viúva desmaiada no meio da sala, Virginia gritando sem parar que ela era sim a namorada do morto e que não acreditava que seu Guiguizinho era noivo de um homem e Afrodite cercada pelos amigos que queriam saber detalhes de sua relação com Guilhermino tendo em vista que ninguém sabia de sua existência.


E no meio de toda aquela confusão chegou o Sr. Clodoaldo, representante da funerária, para levar o corpo para realização do enterro e foi ai que se danou tudo mesmo. Pois quando ele começou a fechar o caixão para enfim levá-lo, a viúva, ou pelo menos a dita oficial, que já havia acordado de seu súbito desmaio correu para impedi-lo, dizendo que queria que o corpo fosse tirado do caixão e enterrado em uma cova rasa no chão, feito um indigente, que aquele homem que estava ali morto não era o marido que ela sempre conheceu e amou e que não ia pagar para enterrar um estranho. Virginia, a namorada, mais uma vez começou a gritar, dizendo que o morto é que tinha razão quando falava que a mulher era uma mão de vaca pão dura, que não deixava ele se divertir controlando tudo que ele gastava e até na hora da morte do coitado ela queria economizar. E as duas começaram a travar o maior bate boca, cada uma puxando o caixão de um lado para o outro e o Sr. Clodoaldo tentado impedir, até que a o corpo escapuliu e caiu no chão. Aí foi a vez de Afrodite se manifestar. Mas dessa vez ninguém teve dúvida de que se tratava de um homem, o que ela, ou ele, não estava fazendo questão nenhuma de disfarçar e com a voz o mais grossa possível deu um grito e se colocou de pé:        - Vamos parar com essa palhaçada! Vocês duas parem com esse escândalo que quem vai tratar do enterro do Guilhermino sou eu! Puxou o longo vestido que usava até a cintura, prendeu na cueca de cor roxa, se abaixo pegou o defunto no colo o colocando de volta no caixão e fez sinal para o representante da funerária dar prosseguimento as questões do enterro. – Pode seguir com os preparativos do enterro que eu vou arcar com tudo. Virou-se para as pessoas que permaneciam imóveis a observar a cena e falou em tão forte e decidido: - E tem mais! Não quero saber de mais alvoroço aqui hem!! Quem quiser ir ao enterro pode ir, mas sem escândalo. Depois já voltada para sua versão feminina, ajeitou o vestido e os cabelos e olhou com olhar de ternura e estendeu a mão para Eugenia: - Vamos querida acompanhar o enterro do nosso Guizão... Ele há de nos fazer muita falta... Eugenia não sabia o que fazer, estava no limite de suas forças, mas embalada por uma energia que não sabia bem de onde vinha deu a mão a Afrodite e as duas seguiram de braços dados atrás do caixão. Virginia correu para se juntar a elas, o que não foi aceito de inicio por Afrodite, mas que em seguida cedeu ao pedido de Eugenia. –Ah... deixa ela vir, afinal era a namorada dele... E as três foram de braços dados por todo cortejo, seguidas pelos amigos e parentes que não paravam de se acotovelar e comentar o ocorrido.

O REENCONTRO

Mariana estava meio atordoada, em um estágio intermediário entre o êxtase e a inércia. Mal conseguia andar e foi neste estado que chegou, não sabe como, à igreja de Santo Antonio no Largo da Carioca e lá ficou até que o sacerdote viesse lhe avisar que a igreja iria fechar e ela teria que sair, podendo retornar no dia seguinte se fosse do seu agrado. Só aí foi que se deu conta de quanto tempo havia ficado mergulhada em suas lembranças do passado, as quais reviveu após seu encontro com Astolfo, seu tão cobiçado amor dos tempos de colégio.

Eles se conheceram ainda na adolescência, estudaram juntos, e Mariana sempre nutriu por ele uma grande paixão, embora não correspondida, que nunca deixou de ser alimentada por ela que vivia na esperança de um dia conseguir chegar ao coração do rapaz, o que nunca aconteceu.
Astolfo após sair do colégio, seguiu carreira militar como era do gosto de seu pai, casou três vezes e atualmente estava separado. Somente teve filhos do primeiro casamento, duas meninas as quais criou com rigor, talvez por medo que se envolvessem com homens como ele, mulherengos e de difícil trato com compromissos. Mariana se formou em professora, casou uma única vez e tinha três filhos homens. Os dois nunca mais se viram até que por uma dessas casualidades do destino, se esbarram literalmente em plena Av. Rio Branco esquina com a Rua Sete de Setembro no centro da cidade e foi como se nunca tivessem se separado, pelo menos para Mariana que quase desmaiou quando se viu amparada pelos braços de Astolfo. Os dois vinham caminhando, apressadamente, em direções opostas no meio de um mar de pessoas que se acotovelavam uma com as outras abrindo passagem, quando Mariana tentando se desenvencilhar de um braço vindo em sua direção tombou para o lado e deu de cara com Astolfo que teve que segurá-la para que os dois não fossem ao chão. Em um primeiro momento a preocupação de Mariana foi a de ajeitar a saia que veio parar no alto da cintura e os sapatos que saíram dos pés com o impacto. Somente alguns segundos depois quando olhou para o até então desconhecido para pedir desculpas é que mais uma vez teve que ser socorrida por ele para não cair dado ao susto que levou ao reconhecer Astolfo, fazendo com que se sentisse tonta e com uma sensação de vertigem. Mariana ficou parada olhando o homem que a segurava quase que em transe, enquanto que Astolfo sem entender o que acontecia não sabia bem o que fazer. - A senhora está bem? Está sentido alguma coisa?  Enquanto falava Astolfo foi conduzindo Mariana para porta de uma loja, que ficava na esquina, com objetivo de saírem do meio do tumulto de pessoas que não paravam de passar quase que por cima deles. Era dezembro, faltavam poucos dias para o Natal, a rua estava apinhada de gente, mas Astolfo logo se arrependeu, pois a vendedora, vendo os dois na porta, se aproximou pensando serem compradores e Astolfo, que já estava perdendo a paciência, voltou a puxar Mariana sem dar resposta a vendedora que ficou a olhá-lo com sorriso sem graça, mas em seguida voltou ao interior da loja entendendo que não iria conseguir vender-lhes nada.  Mariana se sentindo muito constrangida pelo seu comportamento não sabia aonde enviar a cara de tanta vergonha, mas mesmo assim não conseguia controlar seu coração, que saltava feito uma bomba no meio de seu peito parecendo que ia explodir a qualquer momento, e os pensamentos que vagavam sem controle. “Meu Deus!...É ele. Como pode ser?... É o mesmo Astolfo de sempre... o meu Astolfo... Apenas alguns cabelos brancos o separam daquele menino...”  E permaneceu parada a olha-lo fixa e emocionadamente revivendo os tempos de colégio. Astolfo já estava começando a se irritar com aquela mulher ali parada a lhe olhar sem dizer uma só palavra, além do fato de estar atrasadíssimo para um almoço de final de ano com amigos que o esperavam no restaurante do Clube Naval, o que vez com que fosse se afastando com pedido de desculpas quando Mariana meio que sem voz o chamou. - Astolfo... Há quanto tempo... Você não está me reconhecendo não é? Astolfo, que já tinha virado e dado dois passos, voltou ao ouvir seu nome e olhou para Mariana com ar questionador e só quando ela abriu um largo sorriso foi que ele, mesmo sem lembrar seu nome, a reconheceu e inesperadamente lhe deu um forte abraço, o que a deixou sem fôlego e com as pernas bambas, mais desta vez conseguiu se controlar e não cair. - Nossa!... Meu Deus, mas que mundo pequeno... Não me lembro do seu nome, mas de você lembro bem.  Está ótima, bonita como sempre. Desculpe, realmente não havia lhe reconhecido. Mas também depois de tantos anos, não é?... Não sei como você me reconheceu... que ao contrario de você que permanece linda como uma menina, eu estou bem diferente, cabelos brancos, meio calvo... Mas como é mesmo o seu nome? Com a voz um pouco tremula, Mariana disse seu nome e permaneceu ainda por alguns segundo inebriada pela atmosfera do encontro e a cada elogio feito por Astolfo sentia o coração disparar de tanta emoção e fazia força para não demonstrar seu descontrole tentando parecer o mais natural possível e manter um diálogo para alongar aquele momento, mesmo sem saber o que dizer ao certo.  Já Astolfo, apesar de ter gostado de encontrá-la, não queria se estender muito para não se atrasar ainda mais para seu almoço e como Mariana não parava de falar, ele a pegou pelo braço fazendo com que o acompanhasse. E assim os dois seguiram conversando pela rua no meio dos transeuntes que seguiam com a pressa dos aflitos.

Astolfo pouco quis saber sobre a vida de Mariana, em parte por puro desinteresse, mas também porque mal tinha tempo de responder as perguntas feitas por ela que depois de se recuperar do susto de encontrá-lo abriu um rosário interminável de indagações. Queria saber tudo sobre a vida de sua paixão dos tempos do colégio. - Nossa Astolfo, que prazer em encontra-lo. Conte-me como você está? Você seguiu mesmo a carreira militar? Ah... lembro-me bem que você só falava sobre isso no colégio... Que era o sonho do seu pai... E você se casou? Tem filhos, quantos?...  E Mariana seguiu com seus questionamentos e Astolfo respondendo algumas perguntas, se esquivando de outras, não tendo muito empenho em satisfazer a curiosidade da mulher que caminhava a seu lado, a achando até um pouco estranha em querer saber tantas coisas sobre sua vida, afinal era só uma velha e distante colega de colégio com a qual nem tinha tanta intimidade assim e acabou por se arrepender de conduzi-la com ele.  “Ai... droga, porque não me despedi dela e vim embora sozinho?... Eu e essa minha mania de sempre querer ser delicado com as mulheres...” Pensava enquanto andava cada vez mais rápido para chegar logo e acabar com aquele interrogatório infinito que estava lhe irritando. Mariana, por sua vez, estava quase que correndo para poder acompanhar os velozes passos de Astolfo e parecia nem se importar com a falta de interesse de seu acompanhante. Estava em êxtase revivendo suas lembranças e fantasiando aquele momento como a realização de um sonho. “Meu Deus!... Estou andando de braço dado com Astolfo...” Era tudo em que conseguia pensar e sua emoção era tanta que nem percebeu que o verdadeiro objetivo de seu amigo de colégio era chegar o quanto antes a seu compromisso e pegá-la pelo braço havia sido a maneira que ele encontrou de seguir e não ser indelicado largando-a a falar sozinha no meio da rua.

Quando finalmente chegaram à frente do prédio do Clube Naval, Astolfo quase que de um puxão soltou-se dos braços de Mariana que a essa altura segurava-o com força parecendo querer mantê-lo junto dela para sempre, e sem muita cerimônia interrompeu o discurso questionador de sua antiga colega de colégio e se despediu dando-lhe um leve abraço, bem diferente do primeiro quando se encontraram minutos antes, e dois beijinhos no rosto dizendo que havia sido um prazer revê-la e adentrou pelo prédio sem que Mariana tivesse tempo de impedi-lo, e o que é pior, sem responder de forma concreta a pergunta mais importante para ela. – Astolfo, Astolfo... Poderíamos nos encontrar outro dia para conversamos mais. O que você acha?... Mariana questionou como um último suspiro. – Claro que sim Mariana... Claro... Qualquer dia desses... Mariana sacou a caneta da bolsa e continuou em sua investida. – Então anote meu celular e me dê o seu... Mas Astolfo parecendo não ter escutado, ou fingindo não ter, lhe deu um adeusinho e entrou no elevador a deixando parada nas escadas de entrada do prédio perdida num turbilhão de sentimentos, que iam da felicidade a frustração. E assim ficou por algum tempo, até que se deu conta que o motivo pelo qual estava no centro da cidade era devido a ter hora com um dermatologista tido como o mestre no tratamento estético e dificílimo de conseguir horário, ela havia marcado meses antes e estava esperando com ansiedade pelo dia da consulta. Mariana olhou o relógio e verificou que estava quase meia hora atrasada e que provavelmente não conseguiria mais ser atendida. Porém, não se incomodou muito quando ligou para verificar a viabilidade de seu atendimento e a secretária do médico disse que não seria mais possível para aquele dia, só tendo nova data dentro do prazo de seis meses. Desligou o telefone sem responder se queria ou não remarcar sua consulta e andou calmamente pelas ruas da cidade e sem perceber chegou à igreja de Santo Antonio no Largo da Carioca, onde entrou e sentou em um dos bancos da última fila e mergulhou em seus pensamentos.

“- Puxa... Que pena não ter dado tempo de passar o número do celular para ele... Deveria ter lhe dado antes, porque deixei para ultima hora?... Mas bem que ele poderia ter esperado um pouquinho... Era só um minuto... Ah... vai ver estava atraso para algum compromisso importante, não tinha tempo para ficar esperando eu me decidir a dar o telefone... Eu é que demorei demais como sempre... Mas ele nem se lembrou do meu nome... nem quis saber nada sobre a minha vida.... Mas também eu não parava de falar... Coitado quer ver que ficou com vergonha de perguntar... Ele sempre foi tão tímido. E quanto ao nome... o que importa o nome, o importante é que ele lembrou de mim e concordou em nos vermos algum dia... Ei mas espera aí!... Como vou encontrá-lo? Ele não tem meu telefone e nem eu o dele. Ai como eu sou estúpida, como pode uma mulher da minha idade agindo como uma adolescente dos tempos de colégio... Ah... mas ele gostou de me ver, eu pude sentir... Até me abraçou, andou de braço dado comigo... Ele gostou tenho certeza... Qualquer dia desses vou reencontrá-lo e não vou ser tão lenta. A primeira coisa que vou fazer vai ser lhe dar o número de meu telefone e pedir o dele...” E por lá ficou até ser educadamente convidada, pelo sacerdote, a se retirar da igreja.


E enquanto isso, Astolfo que estava na companhia dos amigos já tomando cafezinho após o almoço e num papo daqueles sem hora para acabar, comentava sobre o fatídico encontro com a colega de colégio. – Imaginem que vinha eu andando, atrasado e apressado como sempre, quando dou de cara com uma mulher que quase me jogou no chão. E adivinhem quem era? Uma velha colega dos tempos de colégio. A principio não a reconheci, mas depois quando ela me chamou pelo nome minha memória reavivou e lembrei. E aí é que se danou tudo. Vocês me conhecem, né? Sabem como é que sou com essa minha mania de ser gentil com as mulheres... Principalmente as gotosinhas... Pois bem, como estava atrasado para nosso almoço, resolvi vir andando com ela até aqui para não me despedir rápido e deixá-la para trás, pois ela pareceu tão emocionada quando me viu que fiquei sem ter como não bater um papinho. Meus amigos... vocês não imaginam como me arrependi de não tê-la deixado para trás. A criatura veio da esquina da Rio Branco com Sete de Setembro, onde nos encontramos, até aqui me crivando de perguntas, queria saber tudo, só faltou me perguntar meu tipo sanguíneo!... E para culminar, queria me dar o número de seu celular e pegar o meu para marcarmos de nos encontramos... Fingi que não escutei e entrei depressa no elevador, que para minha sorte estava no térreo. Deus me livre e guarde! A partir de agora, vou passar a andar mais atento pelas ruas para se encontrar com essa maluca outra vez fingir que não a vi... Ufa... Vamos pedir um licorzinho?...